Autopropelidos não são bicicletas: ES vive explosão de veículos elétricos sem infraestrutura nem fiscalização
- Redação

- 23 de out. de 2025
- 3 min de leitura

“Estamos repetindo o erro de sempre: mais espaço para o motor, menos para as pessoas.” A frase do arquiteto e urbanista Murillo Paoli resume o alerta sobre o crescimento desordenado dos veículos elétricos autopropelidos na Grande Vitória e em outras regiões do Espírito Santo. Chamados equivocadamente de “bicicletas elétricas”, esses veículos com acelerador e motor são, segundo o Conselho Nacional de Trânsito (Contran), classificados como equipamentos de mobilidade individual autopropelidos — ou seja, motos elétricas.
CONFIRA AQUI VÍDEO ESPECIAL DE MURILLO SOBRE O ASSUNTO.
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A popularização desses veículos tem sido rápida e silenciosa. Em 2016, o Brasil registrava pouco mais de 7 mil bicicletas elétricas. Em 2025, são mais de 300 mil veículos elétricos em circulação, segundo a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas. Estima-se que só na região metropolitana do Espírito Santo já existam cerca de 9 mil autopropelidos. Eles circulam por calçadas, ciclovias e ruas, muitas vezes em alta velocidade, sem qualquer controle ou fiscalização.

Murillo Paoli destaca que o uso indevido do termo “bike elétrica” mascara um problema urbano profundo. “Um autopropelido não é bicicleta só porque tem pedal. E um carro elétrico não é menos carro por ser silencioso. Estamos legitimando veículos motorizados como se fossem sustentáveis, enquanto eles ocupam espaços que deveriam ser destinados à mobilidade ativa”, afirma.
A infraestrutura urbana capixaba não acompanhou essa transformação. Ciclovias são desconectadas, calçadas estreitas e mal conservadas, e há ausência de sinalização adequada. Municípios estão criando leis para regulamentar o uso, mas ainda falham na fiscalização. O resultado é um trânsito caótico, onde pedestres e ciclistas se espremem para evitar colisões com veículos que, embora pequenos, têm potência e velocidade comparáveis às de motocicletas.
Casos de acidentes já se acumulam. Em Coqueiral de Itaparica, uma senhora foi atropelada por um autopropelido enquanto caminhava na calçada. O condutor não prestou socorro. A vítima passou por uma cirurgia de mais de cinco horas para reconstrução do fêmur e segue há mais de três meses em recuperação, sem poder retomar suas atividades cotidianas. Esse é apenas um dos inúmeros casos relatados inclusive por ortopedistas e especialistas em traumas que alertam o boom de casos.

Além dos riscos físicos, há impactos sociais e urbanísticos. O Plano Diretor Urbano da capital capixaba, por exemplo, prevê incentivo ao transporte público coletivo e à mobilidade não motorizada, com acessibilidade universal. Na prática, o que se vê é o avanço de estacionamentos e vias para carros, enquanto os espaços para pedestres e ciclistas são negligenciados.
Paoli defende que o problema não está nos veículos em si, mas na ausência de políticas públicas que integrem os modais de forma segura e equilibrada. “Precisamos de calçadas seguras, ciclovias conectadas e planejamento urbano que valorize o deslocamento a pé e por bicicleta de verdade. A boa imagem da bike não pode ser usada para legitimar veículos que não promovem a mobilidade sustentável.”
A convivência entre diferentes formas de transporte exige mais do que tecnologia — exige respeito, educação no trânsito e vontade política. Sem isso, o Espírito Santo corre o risco de se tornar uma pista de corrida disfarçada de cidade.
Em breve, confira outras reportagens sobre as 'bikes elétricas': mudanças na legislação nacional e regional; aumento de acidentes e traumas, dentre outras.







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