Moradores de VV participam de lançamento do comitê e manifesto "Capixabas pela Palestina"
- Redação
- 22 de jul.
- 8 min de leitura

Nesta segunda-feira, 21 de julho, mais de setenta cidadãos realizaram o lançamento do coletivo e do manifesto Capixabas pela Palestina, no espaço cultural Triplex Vermelho, em Vitória.
O evento contou com a presença de diversos moradores de Vila Velha, como Rafael Simões, Paulo Emmerich e Rose Alves de Oliveira, fortalecendo a presença capixaba e reforçando que a luta pela Palestina ultrapassa fronteiras geográficas.
Também estavam o deputado federal Hélder Salomão, o ex-governador Vitor Buaiz e representantes da comunidade islâmica, como o Sheikh Abed Lawarrab, da Mesquita de Vitória, que falou sobre a luta palestina como símbolo de justiça e dignidade humana.
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Rafael Simões, morador de Vila Velha e professor universitário, participou como representante do Comitê de Coordenação e fez a leitura pública do manifesto oficial:
"O evento foi muito marcante. Tivemos intervenções políticas importantes, manifestações artísticas e culturais emocionantes. A leitura do nosso manifesto foi um momento simbólico e forte. A causa palestina é também uma causa da humanidade e da justiça." declarou Rafael.
Um dos momentos mais emocionantes foi protagonizado pelas meninas Juri e Larissa, filhas da palestina Baraa, que cantaram uma música tradicional com versos que pedem paz e o direito à infância em meio à destruição. A apresentação arrancou lágrimas da plateia e pode ser conferida no Instagram do comitê: @capixabaspelapalestina.
Baraa também falou sobre sua alegria em ver brasileiros se mobilizando em favor da Palestina e compartilhou os desafios que os palestinos enfrentam diariamente, seja em Gaza, na Cisjordânia ou na diáspora.
“Não podemos aceitar como normal que milhares de crianças e idosos, pessoas absolutamente inocentes, sejam brutalmente mortos — inclusive na fila de ajuda humanitária do pão ou da farinha. Se o Hamas comete crimes, quem também tira vidas inocentes se iguala em crueldade. Todos os responsáveis por esse ciclo de violência devem responder por suas ações, inclusive líderes de nações que seguem coniventes com o extermínio do povo palestino. E que não se distorça a espiritualidade: Deus não mata. Jesus veio para ensinar o amor, não para justificar a guerra.” — reforça Douglas Dantas, editor do VVemDia.
"A iniciativa da criação do comitê reforça o nosso papel social de defesa humanitária e de solidariedade. Não podemos aceitar calados o que se passa em Gaza. Os sindicatos e demais instituições precisam se unir na pressão para o cessar-guerra e o respeito ao povo palestino." complementa André Carvalho, assessor sindical do Sindipúblicos e presidente do PT Vitória.
Na ocasião, os presentes divulgaram um manifesto pelo Povo Palestino, leia abaixo na íntegra.
Confira na íntegra o manifesto:
Palestina: a terra de um povo que tem história, que resiste, que luta, que ensina
O Estado Sionista, também conhecido como Israel, é fonte de instabilidade na região do Oriente Médio e, até mesmo, no mundo, desde a sua criação, em 14 de maio de 1948, e até mesmo antes, basta lembrar, neste momento, do massacre de Deir Yassin, entre 9 e 11 de abril de 1948, ou o massacre de Balad al-Shaykh, em 31 de dezembro de 1947. Nos esgarçamos, temos nossa noção de humanidade violentamente agredida e esmagada ao assistir ao genocídio que, dia após dia, vem sendo cometido em Gaza desde 7 de outubro de 2023.
Diante disso, o Comitê Capixabas pela Palestina, demanda ação positiva e proativa do governo brasileiro, e de todos os entes subnacionais, estados e municípios, no sentido de cortar relações diplomáticas com o Estado de Israel, estabelecer uma proibição completa de compras e vendas de produtos e serviços, cortar qualquer relação de cooperação científica, cultural, política e social com aquele Estado.
Palavras não bastam.
O que estamos presenciando – ao vivo, como nunca antes na história mundial – é a campanha de extermínio de um povo, um genocídio.
Desde 7 de outubro de 2023, são mais de 70 mil palestinos assassinados, desses cerca de 20 mil são crianças. Os feridos e mutilados somam mais de 120 mil, sendo 35 mil crianças. A fome e a falta de água são presenças ainda mais constantes.
Conforme destacou o site Brasil de Fato, com informações da Autoridade Nacional Palestina, em 2024 cerca de 6% da população de Gaza foi assassinada por Israel.
Segundo o porta-voz do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários, Jens Laerke, "Gaza é o lugar mais faminto do mundo. (...) 100% da população está em risco de fome extrema".
O agravamento dessa situação se dá por conta da proibição praticamente total de entrega de alimentos e água potável aos palestinos de Gaza imposta pelo Estado sionista desde o fim unilateral do cessar fogo, em 18 de março desse ano.
Em janeiro desse ano, o “Centro de Satélites das Nações Unidas (Unosat, na sigla em inglês) calculou um índice mais alto. Ele informou que 69% de todas as estruturas estavam destruídas ou danificadas no início de dezembro. A ONU também concluiu que 68% da rede de estradas da Faixa de Gaza foram danificadas ou destruídas”, conforme pontua a BBC .
Já a Organização Médicos sem Fronteiras afirmou, no dia 27 de junho de 2025, que 94% dos hospitais de Gaza estão fora de funcionamento e os restantes 6% estão danificados.
No dia 10 de junho de 2025, uma Comissão Internacional de Inquérito das Nações Unidas destacou que o sistema educacional de Gaza está aniquilado e que mais de 50% de seus locais religiosos e culturais foi destruído..
Todo esse processo de opressão e extermínio, de destruição e controle, no entanto, não começou no dia 7 de outubro de 2023. Ele vem de antes, ele emerge, e se constitui como modus operandi da relação dos ocupantes com os palestinos, com a criação do Estado de Israel.
Os sionistas aproveitaram a justa comoção causada pelo Holocausto, ou Shoah, promovida por Hitler e o regime nazista, para justificar com base num suposto direito religioso à ocupação da Palestina. Um dos argumentos favoritos, e falso, nas duas assertivas que contém, como destaca o historiador Ilan Pappé, era “uma terra sem povo, para um povo sem-terra”. Nem os judeus pelo mundo, eram naquela época, década de 1940, um povo sem-terra, estando, por certo com diferentes graus e amplitudes, bastante integrados nas sociedades que viviam, nem a Palestina era uma terra sem povo.
O primeiro registro sobre a Palestina está na obra Histórias, de Heródoto, considerada por muitos como a obra fundadora da literatura ocidental, escrita no século V Antes da Era Comum (AEC). A Palestina já era, portanto, uma realidade populacional, geográfica, social e política.
Em meados do século XIX, surgiu na Inglaterra o chamado sionismo cristão. Oriundo de uma vontade de se verem livres do chamado problema judeu, líderes políticos ingleses começam a apoiar a criação de um Estado nacional para os judeus na Palestina. Não era, portanto, algo que tivesse uma conotação, digamos, positiva ou afirmativa, mas uma solução para o preconceito de setores poderosos da sociedade inglesa contra os judeus.
É dessa situação, e também da descrença de alguns poucos judeus, como Theodor Herzl, que, no ano de 1897, surge o sionismo político judeu, com a realização do Primeiro Congresso Sionista. Um movimento que junta as ascendentes crenças do nacionalismo, com a desconfiança da capacidade dos judeus se integrarem nas sociedades em que viviam, que foram amplificadas pelos pogroms da década de 1880, na Rússia czarista e o conhecido Caso Dreyfus (1894-1906), na França.
Em 1917, o secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour escreveu uma carta, dirigida ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica no Reino Unido, para ser transmitida à Federação Sionista da Grã-Bretanha. A carta assumiu, pela primeira vez de forma oficial, a intenção do governo britânico de facilitar o estabelecimento do Lar Nacional Judeu na Palestina, caso a Inglaterra conseguisse derrotar o Império Otomano, que, até então, dominava aquela região. Esse documento ficou conhecido como Declaração de Balfour, e acabou sendo aceito, também por França e Itália.
Com as ondas de imigração sionista para a Palestina, a partir de fins do século XIX, e o evidente apoio inglês aos colonizadores, a tensão na região cresce e, entre 1936 e 1939, temos a Grande Revolta Palestina – derrotada pela força militar inglesa e a desarticulação da liderança palestina da época temerosa, e talvez incapaz, em mobilizar os setores populares. Essa derrota teve consequências que reverberaram por muitos anos entre os palestinos.
Com o Holocausto, e o crescimento do movimento sionista entre os judeus, os herdeiros de Herzl conseguem aprovar, com o apoio americano e soviético, e sem nenhuma consulta ao povo da Palestina, a criação de dois Estados a entrar em efeito em 15 de maio de 1948.
Com a Al-Nakba, a Catástrofe, que se inicia com a criação do Estado de Israel, foram expulsos de suas casas e comunidades cerca de 750 mil palestinos que viviam no território que foi usurpado e ocupado pelo Estado Sionista, isso significava 80% da população daquele território, mas não só. Com a vitória de Israel na guerra, os colonizadores sionistas vão além do território determinado pela “partilha” definida pela organização internacional. Nesse contexto foi criada a Faixa de Gaza, que não existia como um território específico, e que a partir de então passou progressivamente se tornar a “maior prisão a céu aberto do mundo”, mas para o qual foram expulsos inúmeros palestinos. Por certo, já existia a cidade de Gaza e outros vilarejos e comunidades, mas não um território específico.
Para fazer curta uma longa história, desde 1948, os palestinos se viram envolvidos numa rede de descaso, mutilação territorial, destruição de vidas e comunidades, tentativa de apagamento de sua rica história política, social e cultural. Foram guerras e mais guerras, opressão e mais opressão, violência e mais violência. Não por outro motivo, muitos palestinos e estudiosos de todo o mundo, têm falado numa Nakba Contínua, pois esse processo segue até os dias atuais.
Não por outro motivo, e apesar de todas as dificuldades, os palestinos e palestinas têm, ao longo do tempo, se organizado para resistir. Fatah, OLP, Frente Democrática para a Libertação da Palestina, Frente Popular pela Libertação da Palestina, Partido Comunista Palestino, Jihad Islâmica, Hamas. Todas essas organizações foram, em algum determinado momento, definidas como “terroristas” pelas suas ações de resistência. Mas, assim, tem sido ao longo da história com todos aqueles que lutam contra a violência e a usurpação do colonizador-opressor. Mahatma Gandhi e Nelson Mandela, para ficar em dois nomes historicamente conhecidos, também foram assim denominados. Resistiram, lutaram, venceram.
A violência não começou com o Hamas, em 7 de outubro de 2023. Começou, sim, desde, ao menos, a década de 1920, com a ação dos grupos sionistas como o Irgun o Lehi e a Haganah. São mais de cem anos de espoliação, exclusão, expulsão e violência.
Como supor que, de esperança frustrada em esperança frustrada, como com os Acordos de Oslo, de 1993, a sociedade palestina não iria reagir? As intifadas – a primeira de 1987 a 1993 e a segunda de 2000 a 2005 –, foram uma resposta a esse estado de coisas.
As quatro “operações especiais” do Estado sionista contra a Faixa de Gaza (Chumbo Fundido – 2008-2009; Pilar Defensivo – 2012; Margem Protetora – 2014 e o conflito de 2021 com o Hamas e a Jihad Islâmica) resultaram em mais de 4.000 mortos e 20.000 feridos.
A mistificação Ocidental contra os palestinos, de forma específica, e os muçulmanos, de forma geral, como se uns e outros, fossem violentos e incivilizados não se sustenta diante dos números e da história. Violentos foram os opressores europeus contra os povos da África, da Ásia e da América, violentos tem sido os colonizadores sionistas contra os palestinos.
A manufatura do consentimento que a grande mídia corporativa ocidental tenta criar sobre a violência de palestinos e muçulmanos, e os supostos direitos dos sionistas a resistirem contra esses incivilizados, não é historicamente correta, nem factualmente justa.
Só o fim da opressão, espoliação e violência por parte dos sionistas, com uma vida em liberdade para os palestinos e palestinas decidirem soberanamente seus destinos poderá resolver a situação. Para isso, é preciso, o fim do genocídio contra os palestinos e palestinas de Gaza, o fim do controle sionista da Cisjordânia, o retorno dos refugiados palestinos às casas e às comunidades, o reconhecimento internacional do Estado da Palestina, o julgamento dos criminosos de guerra indiciados pelo Tribunal Penal Internacional, e, minimamente, o retorno do Estado sionista às fronteiras definidas pela ONU em 1947, para a discussão posterior da situação final da região, seja com a manutenção de dois Estados, seja com a criação de um Estado binacional.
Como disse a grande poetisa palestina Fadwa Tuqan:
“Nossa terra tem um coração pulsante, Que não para de bater e suporta o insuportável. Ele guarda os segredos das colinas e dos úteros. Essa terra que faz brotar espinhos e palmeiras também é a terra que pare um povo que luta pela liberdade. Essa terra, minha irmã, é uma mulher”.
Viva a Palestina.
Todo apoio à Palestina Livre e Soberana.
Pelo fim do Genocídio palestino.
Pão, paz, terra e liberdade.
Capixabas pela Palestina
Vitória, 21 Julho de 2025
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